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Apresentação do projeto

Cinema, Conhecimento e Prostituição: uma experiência de animação cultural na Vila Mimosa

As prostitutas formam um grupo social fortemente marcado por estereótipos e preconceitos, entretanto temos acompanhado um crescimento em sua capacidade organizativa e reivindicatória, com constantes ações que as retiram de um gueto real e simbólico e as expõem publicamente como trabalhadoras cientes de seus direitos sociais[1].

A Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCAVIM), entidade que congrega mulheres que atuam na Vila Mimosa, área confinada de prostituição da cidade do Rio de Janeiro, vem há tempos implementando projetos que visam a melhoria de suas condições de vida e a geração alternativa de renda. Ações como estas têm sua centralidade no trabalho e podem ser consideradas como avanços na luta por direitos desta categoria profissional, pois contribuem para a consolidação de sua capacidade de organização, bem como para a redução da discriminação e do estigma que cercam suas atividades.

O projeto que ora apresentamos busca participar deste esforço atuando, contudo, em outra importante dimensão - o lazer. Movidos pela preocupação com a ampliação da noção de direitos, mais especificamente os direitos de acesso a bens culturais, trabalhamos na perspectiva da inclusão cultural utilizando o cinema como meio de formação intelectual e social. Cremos que ver filmes é uma prática social profundamente educativa e, ao mesmo tempo, também acreditamos que se pode desenvolver competências e habilidades necessárias para uma melhor fruição da linguagem cinematográfica. Estas habilidades e competências estão diretamente ligadas ao ambiente sócio-cultural no qual o sujeito está imerso, daí que ver filmes, preferir este ou aquele gênero, compreender essa ou aquela cinematografia pode se constituir em um meio de distinção social e, conseqüentemente, aumentar as barreiras para a vivência desta forma de arte.

Neste sentido, um projeto que pretende apresentar um painel sobre o cinema e despertar o interesse por essa forma de expressão em pessoas oriundas de classes sociais subalternas, cujas condições de vida são extremamente duras, configura-se como um espaço de conhecimento, de formação e de inclusão sócio-cultural. Além disso, padrões culturais, normas e costumes, não apenas de um grupo específico, mas também de vários outros, poderão ser objeto de análise e de reflexão o que certamente romperá barreiras a partir da produção de novos saberes, crenças e valores.

Estamos preocupados com a formação de um novo espectador capaz de emocionar-se com as imagens, interpretando-as e apreciando-as. Não pretendemos criar cinéfilos, mas sim ajudar a formar pessoas que terão o cinema como fonte de prazer em outra dimensão da sensibilidade. Cremos que uma realidade embrutecida embrutece os sujeitos, por isso, pretendemos construir uma reserva de sensibilidade através do cinema. Além disso, é nossa intenção estabelecer condições para o desenvolvimento do que estamos chamando de ‘autonomia lúdica’, isto é, a capacidade autônoma de optar por aquilo que se pretende fruir no lazer.

De certa maneira, esse projeto dá seguimento a um outro coordenado pelo Prof. Dr. Victor Andrade de Melo na Escola de Educação Física e Desportos, entre 1999 - 2001 e chamado Lazer e Prostituição. Mais tarde, com suas preocupações ampliadas, este passou a ser denominado Grupo de Pesquisa Lazer e Minorias Sociais e atualmente denomina-se ANIMA - Lazer, Animação Cultural e Estudos Culturais (http://grupoanima.org/).

O projeto Cinema, conhecimento e prostituição: uma experiência de animação cultural na Vila Mimosa tem sua origem nas necessidades do Grupo ANIMA de estabelecer uma relação entre o que vem sendo discutido em seu interior e aquilo que entende por intervenção no âmbito da Animação Cultural. Configura-se, portanto, como um projeto de extensão por possibilitar que conhecimentos sejam postos em ação e que, em retorno, outros conhecimentos sejam construídos instituindo, assim, meios para que os graduandos vivenciem experiências profundamente enriquecedoras do ponto de vista pessoal, profissional e acadêmico.

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Justificativa

De acordo com os resultados do Projeto de Pesquisa Lazer e Prostituição (MELO, 2003) a fruição do lazer pelas prostitutas além de não se constituir em um objetivo simples de ser alcançado, pode ser um problema, pois, como muitos trabalhadores autônomos, seus ganhos são proporcionais à duração de sua jornada de trabalho.

O mapeamento realizado por Melo (op.cit) sobre as atividades desenvolvidas pelas prostitutas no lazer revela que as preferidas são festas (bailes, shows, pagodes, bares), passeios (praias, parques, shoppings centers, clubes) e convívio familiar. Sobre esta última opção, vale ressaltar que os afazeres domésticos são muito valorizados, pois ajudam a criar um mundo "fora" da vida da prostituição que pode ser definido como uma espécie de mecanismo de auto-preservação, auxiliar na separação da imagem da prostituta da imagem da mulher (MORAES, 1995). A pesquisa, além de revelar que os chamados interesses artísticos[2] não estão entre as opções de lazer mais vivenciadas, aponta três obstáculos que impedem tais experiências, são eles: dificuldade de abrir um espaço de tempo na jornada de trabalho, distância do local de moradia de instalações específicas, tais como cinemas e teatros e deficiências educacionais relacionadas à arte em nossa sociedade.

Tais dados reforçam nosso empenho em desenvolver este projeto de extensão, pois vão ao encontro de nossos objetivos bem como reafirmam o papel da universidade em sua relação com a sociedade. Neste sentido, é grande seu impacto social, visto que contribuirá para a inclusão cultural das prostitutas, irá configurar uma ampliação de suas oportunidades educacionais e, por conseguinte, trará reflexos no que tange à qualidade de vida. Com relação aos estudantes de graduação, o projeto terá efeitos em sua formação pessoal, social e técnico-científica.

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Objetivos

1)  Inserir a UFRJ no esforço de reivindicação de direitos das prostitutas, sintonizando-a com ações desenvolvidas pelo Governo Federal na área de direitos de mulheres e de grupos sociais marginalizados[3];
2)  Contribuir para a superação de barreiras para a apropriação do cinema como manifestação cultural no lazer;
3)  Formar educadores comprometidos com a construção de uma nova sociedade;
4)  Apresentar aos graduandos um novo campo para pesquisa e para a atuação profissional;
5)  Desenvolver a competência para ver, produzindo reflexões que possam ser transformadas em produtos tais como, exposições fotográficas e roteiros para curtas-metragens;
6)  Desenvolver a autonomia lúdica das prostitutas.

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Resultados Esperados

Ao final do primeiro ano de atividades:
1) Será organizada uma exposição fotográfica sobre o projeto;
2) Serão produzidos três artigos para serem apresentados em encontros científicos de educação física ou de ciências humanas e que participarão do processo seletivo para publicação em periódicos com boas classificações no sistema Qualis Capes das mesmas áreas.

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Possíveis desdobramentos

1) Articular o projeto a outras experiências artísticas e culturais;
2) Desenvolver trabalhos do mesmo tipo com crianças, filhos das prostitutas da Vila Mimosa;
3) Organizar a elaboração de produtos desta experiência, tais como, livro, roteiros e produção de curtas-metragens e de documentários;
4) Formar um pólo cultural na Vila Mimosa;
5) Criar um Cineclube e articulá-lo com outros cineclubes da cidade.

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Metodologia

É importante ressaltar que não é nossa intenção trabalhar com filmes em uma perspectiva descontextualizada. Não pretendemos fragmentá-los em unidades mínimas de compreensão a fim de torná-los mais ‘didáticos’. Não é nosso objetivo explicar os filmes, mas sim, deixá-los exercer sua função de afetar/emocionar e fazer pensar, na medida em que estamos comprometidos com a construção de uma nova possibilidade de ver e de refletir sobre o mundo tomando filmes como fonte de conhecimentos e de informações.

Neste sentido, começaremos o projeto fazendo entrevistas com as mulheres que trabalham na Vila Mimosa, residentes ou não, que demonstrem interesse em participar. Este momento é parte importante da estratégia de atração do público, pois, como a participação não será obrigatória, devemos encetar esse processo a partir daquilo que gostam, conhecem e desejam. Com este mapeamento daremos início às exibições quinzenais, sempre no mesmo horário, a fim de criar uma rotina que facilitará a organização e a presença da platéia.

O objetivo é apresentar um painel com filmes de diferentes cinematografias, de grande apelo popular ou não, com temáticas variadas e capazes de abrir espaço para leituras e interpretações diversas. Importa destacar que é nosso interesse estimular as discussões sobre valores, crenças e universos culturais retratados. Estes debates serão gravados e estas falas serão utilizadas para acompanhar e avaliar o desenvolvimento do projeto a fim de que possamos perceber as mudanças que porventura aconteçam nas formas de encarar a linguagem cinematográfica.

Antes de cada exibição será feita pelos bolsistas uma rápida apresentação do filme com a intenção de situar a platéia e prepará-la para o que irá assistir. Também caberá aos estudantes organizar todo o material de divulgação das sessões e, após cada exibição, entrevistar ao menos duas mulheres. Estas entrevistas serão gravadas e será responsabilidade dos graduandos a transcrição e o arquivamento das falas, bem como a apresentação de um resumo sobre os acontecimentos do dia nas reuniões quinzenais de estudo e de acompanhamento do projeto.

As duas mulheres entrevistadas serão consideradas informantes privilegiadas, pois a intenção é que sejam sempre as mesmas a fim de que possamos observar se está havendo apreensão da proposta do projeto. Para tomarmos a decisão de eleger estas duas informantes encontramos apoio no conceito de habitus (BOURDIEU, 1992). Cremos que as falas dessas mulheres são representativas de um conjunto formado por comportamentos, gostos e pensamentos que caracterizam este grupo social, apesar das óbvias diferenças individuais.

Os filmes serão escolhidos a partir do critério do contraste, isto é, uma mesma temática será exposta em diferentes formas de representação visual a fim de que possam ser percebidos os diversos elementos de significação e artifícios dramáticos. Por exemplo, a temática IDOSO, poderá ser abordada através dos filmes Chuvas de verão dirigido por Cacá Diegues (1978), por Garotas do Calendário, dirigido por Nigel Cole (2003) e/ou, ainda, por Tia Danielle, dirigido por Etienne Chatiliez (1993). De todo modo, o que importa é a possibilidade do acesso a filmes que possibilitem a estas mulheres a reflexão sobre si mesmas e sobre o mundo que as cerca de maneira que possam construir conhecimentos e fruir o prazer do cinema. Isto é, neste projeto o saber e o sabor são constituintes inseparáveis.

Como produtos acadêmicos, dentre tantas temáticas que poderão surgir, será possível desenvolver pesquisas sobre o modo de recepção; sobre identificação e vínculo espectador-trama; sobre herança cultural e distinção social e sobre o cinema como meio de animação cultural.


Público-Alvo:
Prostitutas da Vila Mimosa ligadas à AMOCAVIM.

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Plano de trabalho dos bolsistas

As atividades dos bolsistas acontecerão sempre com a supervisão da coordenação do projeto.
1)  Planejamento das ações a serem desenvolvidas;
2)  Participação em reunião quinzenal de estudos;
3)  Levantamento da cinematografia a ser exibida, apresentando sinopse, ficha técnica; biografia do diretor, prêmios recebidos; principais atores participantes;
4)  Assistir a todos os filmes que serão exibidos e preparar questões para as entrevistas com as mulheres espectadoras;
5)  Divulgação da exibição;
6)  Preparação da ambiência de cinema[4] da sala de exibição;
7)  Elaboração de um diário de campo;
8)  Gravação e transcrição dos debates pós-exibição;
9)  Entrevistas com as mulheres antes e depois das exibições;
10) Redação e apresentação de artigos científicos

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Acompanhamento e Avaliação

O projeto será continuamente discutido e avaliado nas reuniões quinzenais de estudos, portanto, qualquer modificação que se faça necessária poderá ser implantada em qualquer período. Os estudantes serão avaliados no que diz respeito à:
- freqüência às sessões de cinema e às reuniões de grupo de estudos;
- participação e envolvimento com o projeto;
- elaboração de textos científicos sobre o projeto.

Ao final de seis meses, com base nesta avaliação poderá ter suspensa sua bolsa.

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Outras Instituições/Entidades Partícipes

O Projeto tem o apoio da Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (AMOCAVIM), cuja diretoraé a assistente social Cleide Almeida.

A intermediação da AMOCAVIM é fundamental para a efetivação do contato com a população da Vila Mimosa, a fim de que naturais receios e desconfianças de ambas as partes se dissipem.

Contaremos, ainda, com a infra-estrutura cedida pela Associação para a exibição dos filmes e para a preparação da ambiência necessária para o "clima de cinema" que se pretende criar.

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Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.
DUARTE, Rosália. Cinema e educação. 2ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
DUMAZEDIER, Joffre. Valores e conteúdos culturais do lazer. São Paulo: SESC, 1980.
MELO, Victor Andrade de. Cinema e esporte: diálogos. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2006.
MELO, Victor Andrade de. Lazer e minorias sociais. São Paulo: IBRASA, 2003.
MELO, Victor Andrade de; ALVES JUNIOR, Edmundo de Drummond. Introdução ao lazer. Barueri, SP: Manole, 2003.
MORAES, Aparecida Fonseca. Mulheres da vila: prostituição, identidade social e movimento associativo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.
TEIXEIRA, Inês A. C.; LOPES, José S. M.(orgs.). A escola vai ao cinema. 2ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.


Notas:

[1] Ver, por exemplo, os endereços eletrônicos: www.vilamimosa.com.br; www.rededeprostitutas.org.br; www.daspu.com.br; www.beijodarua.com.br; www.davida.org.br; www.belezapura.org.br/publique/, em 02/03/2008

[2] Segundo Dumazedier (1980) os interesses culturais do lazer são seis: intelectuais, manuais, artísticos, turísticos, sociais e físico-desportivos.

[3] A esse respeito ver matéria publicada no sítio http://www.beijodarua.com.br/ sobre as parcerias do movimento das prostitutas com o Ministério da Saúde e  a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres. Em 04/03/2008.

[4] Acreditamos que o ambiente de exibição deva ser o mais aproximado possível daquele dos cinemas, portanto, será fundamental que a sala esteja escura e que haja pipoca para ser consumida.

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